Norman Collins

Sailor Jerry nasceu Norman Collins, mas optou por definir-se nos seus próprios termos. Ele simplesmente não era uma daquelas pessoas que nasceu para ter uma vida tradicional e ele sabia disso. Lá atrás, na década de 1920, quando Collins atingiu a maioridade, a tatuagem era uma forma de expressão que pertencia a uma contracultura americana emergente. Era um símbolo de não seguir cegamente a cultura dominante - de escolher viver fora das regras.

Norman Collins

Sailor Jerry nasceu Norman Collins, mas optou por definir-se nos seus próprios termos.  Ele simplesmente não era uma daquelas pessoas que nasceu para ter uma vida padrão e ele sabia disso.  Lá atrás, na década de 1920, quando Collins atingiu a maioridade, a tatuagem era uma forma de expressão que pertencia a uma contracultura americana emergente.  Era um símbolo de não seguir cegamente a cultura dominante - de escolher viver fora das regras.

Collins saiu de casa ainda adolescente e foi viajar o país de carona e trem. Ele não estava sozinho. Naquele tempo, um número substancial de americanos, jovens e velhos, trocaram o tão chamado sonho americano por um tipo diferente de existência. Para alguns, isto foi provocado por dificuldade e necessidade. Mas, para Collins e outros como ele, era sobre o desejo de viajar e a liberdade. Eles viajavam por trem, arrumavam trabalho temporário e acampavam pelo caminho. Foi quando Collins começou a aprender seu ofício, trabalhando primitivamente com apenas uma agulha e tinta preta, criando desenhos à mão-livre, uma punção de cada vez.

Eventualmente, ele chegou em Chicago e aconteceram duas coisas que mudaram sua vida. A primeira, se enturmou com a lenda local da tatuagem, Gib “Tatts” Thomas, que o ensinou a usar uma máquina de tatuagem. (Para praticar, ele pagava mendigos com vinho barato ou alguns centavos para o deixarem tatuá-los). A segunda foi se alistar na marinha. A marinha dos Estados Unidos era um lugar onde um jovem que vinha cruzando o país em trens de carga poderia aumentar as apostas em sua aventura e cruzar os oceanos. Durante este tempo, Collins desenvolveu um amor eterno por navios. Ele eventualmente ganharia diplomas de mestre em todos os tipos de embarcação para a qual pudesse ser testado

Quando Collins saiu fora da Marinha, ele se instalou em Honolulu. Naquela época, o Havaí era um aglomerado de ilhas, mas poucos anos depois, os japoneses bombardearam Pearl Harbor e tudo mudou. No auge da segunda guerra mundial, mais de 12 milhões de americanos serviram o exército e, em qualquer momento, uma grande parte deles estava de licença em Honolulu. As circunstâncias da guerra colocaram uma parte dos homens americanos em ambientes que, geralmente, só existiam nas periferias – lugares como a Hotel Street em Honolulu, um distrito composto quase exclusivamente de bares, bordéis e estúdios de tatuagens. E foi lá que Collins, como Sailor Jerry, construiu seu legado. 

BEM-VINDO À HOTEL STREET

A segunda guerra mundial foi um grande igualador. Era uma época em que servir nas forças armadas unia todas as camadas de sociedade. Foi uma época rara na história americana, onde pessoas das mais variadas origens foram parar nos mesmos navios, mesmos pelotões, mesmo campo de batalha - e como no caso de Honolulu, foram parar na mesma vizinhança durante suas licenças.

Os soldados e os marinheiros queriam ter todas as experiências que pudessem antes de partir. Independente se um homem fosse criado numa mansão na Park Avenue ou numa casa de fazenda no Alabama, enquanto ele estava de licença, ele era obcecado com uma de 3 coisas (ou muito provável com todas s três). Parafraseando as palavras de uma tatuagem icônica de Sailor Jerry (pegando leve, como pedido pelos nossos advogados), estes soldados estavam lá para beber uns drinks, curtir a companhia de mulheres e se tatuar. As filas nos bares eram tão longas que você tinha apenas alguns minutos para terminar sua bebida antes de ter que dar espaço para o próximo cara. A mistura de peripécias e bravatas que caracterizavam a mentalidade de um recruta americano de licença é um aspecto profundo da arte de Jerry. De "Ruína do Homem" - a imagem de uma gata em um copo de coquetel cercada por dados, cartões e os símbolos de dólar - a um retrato de uma faca sangrenta perfurando um coração com as palavras “Morte antes da desonra” - as tatuagens de Sailor Jerry lidavam com questões que eram ao mesmo tempo práticas e elementares. A Hotel Street pode ter sido um lugar que faria um pastor corar, mas era também um lugar onde as verdades eram expressadas. A guerra, seja você contra ou à favor dela, tende a filtrar o lixo e esta é uma razão pela qual o trabalho de Sailor Jerry é tão atraente.  

COJONES E TALENTO ARTÍSTICO

"Se você acha que não é homem o bastante para ter uma tatuagem, não faça uma. Mas não arranje desculpas para você mesmo criticando o cara que faz!" Assinado, "Obrigado… Sailor Jerry", este bilhete foi colocado em um lugar de destaque na loja de Jerry na Hotel Street e dá uma idéia da atitude que ele trazia para seu trabalho. Ele estava ciente de que sua clientela não era composta de meliantes que queriam apenas tocar o terror na cidade, eles eram homens servindo à uma causa mais elevada. Ou como ele colocou, "Os bárbaros tatuados que vivem e morrem pelos campos de batalha do mundo."

Ironicamente, Jerry foi profundamente influenciado pela cultura que começou a guerra em primeiro lugar - a japonesa. Os artistas mais proficientes e sofisticados da tatuagem da época eram os mestres japoneses conhecidos como Horis. Transformou-se no primeiro ocidental a ter correspondência regular com estes mestres, compartilhando de técnicas e de traçados da tatuagem. Fundindo as sensibilidades americanas e asiáticas, Jerry criou seu próprio estilo de tatuagem - icônico e artístico, irreverente e cheio de alma, radical e bonito.

Jerry se frustrava continuamente com outros artistas (os quais chamava de “larápios de cerébro”) que copiavam seu trabalho. Ele se recusava a fazer grandes desenhos nas costas ou peitoral dos clientes que tinham tatuagens de artistas que não respeitava. Suas cartas aos companheiros tatuadores são um testamento de sua devoção ao ofício da arte de tatuar. Ele discorre detalhe por detalhe, das técnicas de sombreamento às“possibilidades de tom e textura” à efeitos “crash” effects. Jerry estava em uma constante missão de aprofundamento de suas habilidades.“Eu ainda não fiz o meu melhor, só meu melhor até agora.”

Contudo, tatuar era apenas uma parte da vida de Jerry. Ele manteve seus interesses marítimos como capitão de uma escuna de três mastros que excursionava pelas ilhas. Teve seu próprio programa de rádio, o Old Ironsides na KRTG, onde alternava entre bravatas políticas e leitura de suas poesias. Aprendeu sozinho a ser eletricista, o que o ajudou a inovar suas máquinas de tatuagem. Tocou em uma banda de jazz. Viajava por tudo quanto é lado em um Thunderbird amarelo-canário e estava em sua Harley quando teve o ataque cardíaco que o mataria (suando frio, montou em sua moto e a guiou até sua casa ). Um dia antes de morrer, Jerry escreveu uma carta ao amigo e tatuador, Paul Rogers, brincando que iria“botar pra dentro um pouco de carne-moída de cavalo-marinho, merda de rato pulverizada, pele de cobra, ovos de lagarto, lesmas secas e pele seca de morcego e aí veríamos quem é o melhor doutor no fim das contas.” Pediu que após sua morte, sua loja fosse passada para seus pupilos, Don Ed Hardy e Mike Malone (aka Rollo Banks). Se nenhum dos dois a assumisse, Jerry deixou instruções de que deveria ser queimada. Malone pegou a loja e a tocou por quase 25 anos. 

De certa forma, Jerry estava sempre lutando contra algo, fosse o pensamento convencional, a mediocridade dos tatuadores imitadores ou a interferência do governo em seus negócios. Ele nunca abaixou a cabeça pra nada ou ninguém. Para citar uma carta que Jerry escreveu ao pupilo, Don Ed Hardy, comentando um desenho do dragão do yin-yang, “ mantenha-os lutando, é a maneira que Yin-Yang funciona - se não há oposição de forças não há evolução da vida!”